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O JORNAL, O CINEMA, O TEATRO E A MÚSICA COMO DISPOSITIVOS DA PROPAGANDA
SOCIAL ANARQUISTA: UM ESTUDO SOBRE AS COLUNAS “ESPETACULLOS” E “PALCOS,
TELAS E ARENAS” NOS JONAIS A LANTERNA E, EM A PLEBE (1901 A 1921)
Cristina Aparecida Reis Figueira1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo A presente pesquisa se inscreve em uma tradição investigativa que se volta para o estudo dos vários projetos e modelos educacionais não-institucionalizados em circulação nas primeiras décadas da República Brasileira. Propõe-se a analisar a experiência educacional anarquista, mais especificamente, focalizar as prescrições de usos e de críticas direcionadas ao cinema, à música, ao jornal e ao teatro como dispositivos educativos para a propaganda social anarquista no período compreendido entre 1901 e 1921. A escolha em investigar as práticas educacionais anarquistas, particularmente, aquilo que diz respeito aos dispositivos mencionados, implicou em uma outra escolha: a investigação dos jornais ácratas como fonte de pesquisa. Por um lado, essa escolha deveu-se a especificidade do objeto escolhido, visto que nos jornais encontram-se signos da memória do movimento anarquista. Por outro, o pressuposto de que um objeto de pesquisa não possui uma existência autônoma e que sua visibilidade fica a cargo dos problemas formulados pelo pesquisador, demonstra que a opção em participar de uma determinada tradição de pesquisas que se voltam para a reconstituição dos projetos e modelos não-institucionalizados foi, também determinada pelo interesse e desejo da pesquisadora. Entre os vários periódicos selecionados no processo de construção da pesquisa, foram privilegiados dois jornais, o primeiro A Lanterna-anticlerical e de combate, em sua primeira fase de circulação – 1901 a 1917 e o segundo A Plebe, no período entre 1917 e 1921. No processo de seleção e de análise de artigos destes periódicos foi elaborado um banco de dados categorizando artigos que faziam referências ao cinema, ao teatro e ao cinema. A principal direção metodológica foi o trabalho com fontes primárias – os jornais - para que a partir de seu interior, apreender os impactos que as linguagens do cinema, da música, do teatro e do próprio jornal tiveram no debate educacional anarquista. Com a pesquisa foi possível compreender que a dimensão educativa desses jornais possibilita a apreensão de várias práticas da educação não-formal, e abre caminhos para outras pesquisas que os considerem como fonte e como objeto. Por meio de algumas colunas selecionadas, “Espetacullos” de A Lanterna e “Palcos, Telas e Arenas” de A Plebe, procurou-se evidenciar quais eram as inserções da atividade de lazer educacional na vida operária. Dos artigos selecionados para análise, procurou-se refletir sobre o significado do termo propaganda social para o movimento anarquista, demonstrando que seus sentidos podem ser aproximados, em certa medida, ao que hoje entendemos como ato educativo, ou como práticas educativas para a formação da consciência crítica. Para tal aproximação, no entanto, é necessário destacar a temporalidade específica dessas práticas, que no caso dos anarquistas ocorriam inseridas na perspectiva de uma revolução social para uma outra sociedade. O estudo demonstrou que nas duas primeiras décadas do século XX, as práticas com o cinematógrafo estavam intrinsecamente ligadas ao teatro, mais especificamente ao teatro operário. O cinema era uma espécie de teatro filmado. Dessa evidência, foi possível perceber que antes de o cinema encantar as classes médias e abastadas, ele estava intensamente voltado à vida operária. Como teatro filmado, as atitudes dos primeiros cinegrafistas, sujeitos pertencentes às classes populares, era realizar filmagens de cenas da vida operária. Essas evidências, somadas aos registros jornalísticos sobre a temática dos primeiros filmes,levou à suposição de que por meio do cinema, os sujeitos comprometidos com a prática da propaganda social anarquista, pretendiam expressar a sua própria visão de mundo, registrar sua história, tomar para si a sua imagem. O reconhecimento do cinema como uma prática a compor com as outras atividades e o projeto educacional 1 Mestre e Doutoranda no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade, PUC-SP. anarquista, ocorreu ao mesmo tempo em que se realizavam as críticas aos usos do cinema pela Igreja e ao chamado cinema burguês. Os participantes do debate ácrata travavam uma intensa reflexão sobre os efeitos dessa nova linguagem na educação religiosa e na burguesa e, a medida em que, apresentavam as críticas ao “santo cinema” e ao “cinema mercantil” em seus jornais, esses sujeitos, comprometidos com as atividades da propaganda social anarquista percebiam o quanto essa nova linguagem impressionava, agitava, exacerbava paixões e sentimentos. Constatavam que o cinema podia servir tanto aos interesses da educação burguesa e religiosa, como também, constituía-se em uma interessante possibilidade educativa, se adequada aos princípios da propaganda social libertária. TRABALHO COMPLETO
A presente pesquisa insere-se em uma tradição investigativa que se volta para o estudo dos vários projetos e modelos educacionais não-institucionalizados em circulação nas primeiras décadas da República brasileira. Trata-se de uma parte de minha dissertação de mestrado2, cujo processo de construção perpassou etapas, entre as quais, a organização de um banco de dados com artigos publicados na imprensa anarquista. Os artigos foram organizados considerando-se, preferencialmente, as referências ás práticas educativas endereçadas ao cinema, sem deixar de lado as remetidas ao teatro, e ao jornal; dispositivos para a propaganda social libertária na São Paulo das duas primeiras décadas do século XX. Para o presente texto objetiva-se discutir estratégias da propaganda social anarquista a partir de alguns artigos publicados em duas colunas de dois jornais anarquistas em circulação nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. A principal direção metodológica escolhida na pesquisa foi o trabalho com fontes primárias – os jornais - para a partir de seu interior, apreender os impactos que as linguagens do cinema, do teatro e do próprio jornal tiveram no debate educacional anarquista. O pressuposto de que um objeto de pesquisa não possui uma existência autônoma e que sua visibilidade fica a cargo dos problemas formulados pelo pesquisador, abre possibilidades para explorar diferentes recortes de pesquisa sobre o tema da educação anarquista demonstra também que a opção em utilizar a imprensa como objeto e fonte de pesquisa também determinada pelo desejo de pesquisa. Por meio de algumas colunas selecionadas, “Espetacullos” de A Lanterna e “Palcos, Telas e Arenas” de A Plebe, procurou-se evidenciar quais eram as inserções da atividade de lazer educacional na vida operária. Dos artigos selecionados para análise, procurou-se refletir sobre o significado do termo propaganda social para o movimento anarquista, pressupondo-se que seus sentidos podem ser aproximados, em certa medida, ao que hoje entendemos como ato educativo, ou como práticas educativas para a formação da consciência crítica. Para tal aproximação, no entanto, é necessário destacar a temporalidade específica dessas práticas, que no caso dos anarquistas ocorriam inseridas na perspectiva de uma revolução social para uma outra
sociedade. O termo “propaganda”, com o avanço do modo de vida capitalista, passou a ser sinônimo de
estratégia para a venda, para a publicidade de qualquer mercadoria. Já para os anarquistas, o sentido não
é esse, pois estava muito próximo do que entendemos hoje por ato educativo. Para os militantes do
movimento anarquista, educar no meio burguês era um ato de combate. Nesse sentido, tanto a educação
religiosa, como aquela sob a égide do Estado significavam o domínio das consciências. Para combater
esse tipo de prática, de inculcação ideológica burguesa, os anarquistas empregavam a expressão
propaganda social que significava travar o debate público para a formação de consciências autônomas,
críticas, libertárias.
O jornal como principal veículo da propaganda social anarquista
As colunas Espetacullos, publicada também como Diversões e a Palcos, Telas e Arenas foram publicadas nos dois jornais em diferentes períodos, na maioria das vezes os seus artigos não eram 2 FIGUEIRA, Cristina Ap. Reis, O cinema do povo: um projeto da educação anarquista – 1901-1921. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduado em Educação: História, Política, Sociedade, Pontifícia Universidade Católica, PUC-SP, 2004, sob orientação do Prof. Dr. Luiz Carlos Barreira. assinados e apresentavam semelhanças, tanto em conteúdo como na diagramação. Estas semelhanças, muito provavelmente, se devem ao fato dos participantes destes dois jornais pertencerem a mesma rede de intelectuais e de colaboradores. O primeiro jornal - A Lanterna - foi examinado em sua primeira fase de existência (1901 –1917). Circulou principalmente na cidade de São Paulo, passando por fases em que foi diário, semanal e quinzenal. A tiragem de sua primeira publicação alcançou dez mil exemplares, atingindo um ápice de vinte e seis mil, para depois declinar e estabilizar-se em seis mil números. O segundo jornal - A Plebe, foi criado em 1917 e pode ser considerado o periódico de maior expressão no movimento anarco-sindicalista de São Paulo e por vezes no Rio de Janeiro. De acordo com Khoury, 1988, A Plebe nasceu no bojo das mobilizações das diversas correntes do movimento operário, nas vésperas da grande greve de 1917 funcionando como um expressivo instrumento de luta operária a ponto de sofrer sucessivos empastelamentos (p. 40). A título de exemplo da propaganda social, nos jornais: dois artigos sendo que o primeiro foi selecionado de A Lanterna, em 1901, e o segundo de A Plebe em 1920: A PROPAGANDA
O nosso prezado amigo Dr. Antonio Pinto de A.Ferraz, escreve que achava muito útil a
propaganda que encetamos:
1º - Que a Lanterna publicasse uma descripção minunciosa das tortura da Inquisição,
acompanhada de gravuras explicativas;
2º - Que publicasse em folhetins dois seguintes romances:
a-) Na 1ª página – O Frade – pelo padre; b-) Na 2ª página – A Freira no subterrâneo, 4º volume, por Camilo Castelo Branco; 3º - Que reproduzisse os excellentes folhetins do Dr. Bertholdi, que já não se encontram mais em nosso meio litterario. 4º - Que organizasse uma lista alphabetica de obras anti-clericaes e que a publicasse, em todos os números, na primeira columna da primeira página, declarando, à margem, o preço aproximativo de cada uma d’ellas, e promptficando-se a mandar vir da Europa ou dos Estados Unidos quellas que não se encontram nas livrarias de S. Paulo ou do Rio. Por este serviço poderia cobrar uma pequena commissão que poderia ser aproveitada em benefício do jornal. 5º - Que promovesse em São Paulo representações freqüentes das seguintes peças theatraes: a-) Molière – O Tartufo. b-) Antonio Ennes – Os Lazaristas c-) Sardou – A Tosca d-) Perez Galdós – Electra Do producto desses espectaculos, si fosse possível, tirar-se ia uma porcentagem em benefício do jornal como trabalho de passar todos os bilhetes para que sempre houvesse enchentes – Nos intervallos far-se-iam discursos anti-clericaes e espalhar-se-iam do alto das galerias, annuncios de livros , como por exemplo: a-) O Citador - de Pigault – Lebrun b-) La Bible Amusante de Leo Taxil. c-) Les Conflits de la Sciense et de la Religion. De Draper. d-) Les Erreurs Scientifiques de la Bible. De Ferriè. e-) Os crimes dos papas de Lachatre f-) A vida de Jesus de Renan. g-) A vida de Jesus de Peyral. h-) As Ruínas. De Volney i-) A origem de todos os cultos De Dupuis j-) A Amante de Jesus, de Alfredo Gallis. l-) O crime do padre Amaro –de Eça de Queiroz; m-) A Relíquia – do mesmo. (A Lanterna, nº 02, 06/04/1901, p.1) Como se pode constatar o alvo de A Lanterna era o Clero com quem, o movimento libertário concorria na luta pela conquista dos corações e das mentes. Prescrever leituras, publicar partes de obras consideradas libertárias, assim como combater a educação religiosa com a bandeira do anticlericalismo era a principal estratégia deste jornal. Em A Plebe, em 1920, há um outro exemplo de ação da propaganda social. Trata-se de um convite aos leitores participantes do anarquismo para uma sessão de propaganda: SESSÃO DE
PROPAGANDA
Na sua sede, á rua Senador Queiroz, 70, a União dos Operários Metalúrgicos realizará na
próxima quinta-feira, 8 do corrente, ás 19 horas, uma sessão de propaganda, na qual farão
uso da palavra os camaradas Humberto Del Corso e Florentino de Carvalho.
Este dissertará sobre sindicalismo e anarquismo. (A Plebe, nº 71, 03/07/1920, p.3 )
Os dois anúncios permitem refletir sobre o que os anarquistas entediam por propaganda social. Para o movimento anarquista o termo significava o que hoje entendemos por educação crítica. Eram as ações de ajuda cultural para a formação das consciências. Essa formação tinha que ocorrer processualmente, sem nenhuma imposição, ou coerção, uma vez, que era necessário o livre pensamento do indivíduo. Porém, era preciso militância dos intelectuais do movimento, sem a qual o acesso às doutrinas, às obras, às idéias, à arte seria difícil. Na trajetória de A Lanterna, por sua ampla tiragem e circulação, visualizam-se esforços desmedidos para manter periodicidade e ampla divulgação. Entre os seus leitores estavam aqueles que dominavam a leitura e a escrita, aqueles que nem sempre conseguiam dominar a escrita e aqueles que se apropriavam da leitura pela audição, sendo capazes de reproduzi-la a seu modo. Entre as estratégias para a manutenção e a ampliação da sua circulação constava a publicação de prescrições de conduta ao seu público leitor. Para exemplificar a dimensão dessas orientações, vejamos: SEMEAR PARA COLHER

A todos os amigos da “LANTERNA” lembramos que, depois de a lerem é da máxima
utilidade não a DESTRUIREM. Os que não a GUARDAREM, para colecionar, devem dá-
la a outra pessoa. Lê-la aos que não sabem ler, DEIXÁ-LA nas fabricas, nas obras, nas
oficinas, nos barbeiros, nos cafés, nos restaurantes, nos jardins, nos carros, nos trens
enfim, onde possa ser lida por outros. Espalhar é semear, é tona-la conhecida, é fazer dela
a propaganda, é conquistar novos adeptos para a nossa obra.
Também todos devem arranjar NOVOS ASSINANTES E DEVOLVER a venda avulsa,
afim de que possa propagar mais largamente a obra em que todos andamos empenhados.
(A Lanterna, nº 183, 22/03/1913, p.2)
O artigo “Semear para colher” consiste em uma das muitas estratégias acionadas pelo jornal tendo em vista a constituição de uma comunidade de leitores. Giglio (2000) realiza uma interessante discussão sobre as práticas de leitura e as apropriações discursivas e materiais dos sujeitos participantes do jornal A Voz do Trabalhador, editado no Rio de Janeiro entre 1908 e 1915, como órgão da Confederação Operária. Sua análise oferece destaque para as práticas de organização e de resistência surgidas da relação com o impresso em sua dimensão educativa. Para a autora: (.) o jornal operário era um produto cultural particular capaz de formar uma comunidade de leitores ouvintes que alimentavam-se das idéias e debates surgidos naqueles círculos, provavelmente alterando as formas de relacionamento que provocavam a distribuição de pensamentos novos. Mais que uma comunidade de leitores, os impressos operários, por suas características doutrinárias, possibilitaram a formação de uma rede de distribuidores daqueles discursos, tornaram-se detentores de um poder combatido explicitamente por uma malha de instituições (a polícia, a escola, a igreja), especialmente a polícia, nos episódio de fechamento dos jornais e na destruição de bibliotecas de sindicatos. (p.52) A circulação e a distribuição da propaganda social libertária esbarrava constantemente em seu opositores, criando um campo de conflito que polarizava a imprensa anarquista e a imprensa burguesa, ou seja, a luta entre “os nossos jornalistas” (aqueles da imprensa ácrata) e “os outros jornalista” (aqueles da imprensa burguesa). Para visualizar esse campo de conflito selecionei um artigo de uma coluna intitulada "Crônica Rebelde", por meio da qual é possível verificar o que era dito sobre a grande imprensa e de seus jornalistas, Vejamos: A imprensa assalariada
O Jornalista, na grande imprensa, das grandes rotativas, não passa de réles mercador, ganancioso traficante; cuja avidez de lucro põe em franco relevo a propria desfaçatez, a própria falta de brio e de dignidade. Desvirtuado como está em sua missão de orientador do povo, já não há nele escrupulo de consciencia nem receio de perder merecimentos (.) Assim é que desde o mais lido matutino até o vespertino de menor tiragem (.) É porque a imprensa desta como a de outras capitais, vive apenas do interesse pelo interesse. Não tem ideal elevado nem nutre outro desejo que não o de viver de favores, na dependencia de partidos, tendo por habito defender sempre e incondicionalmente aqueles de cujas bolsas lhe possa sair alguma recompensa (.) O jornalista da imprensa prostituida vende a pena pelo preço da consciencia a troco de alguma soma de dinheiro, afim de ter bem garantida a sua vida de dissipação e de vicios. (.) Eles não sabem que há crise para os operarios. Falam apenas, da situação do comercio, da industria, da lavoura e do patriotismo do governo que fez o grande emprestimo afim de remediar as classes privilegiadas.(.) Não se limitam apenas a noticiar os factos. Procuram dar-lhes uma feição anormal, extranha, assombrosa, que possa atrair, empolgar a atenção publica, pondo-lhes uns coloridos exagerados, extravagantes, artificiosos, provocadores de curiosidades, e que sempre lhes valem um bom aumento de lucros na venda avulsa. (.) não falam com relação aos comicios realizados contra a carestia da vida, senão quando a policia precisa de suas mentiras afim de encobrir algumas violencias e justificar a reacção da burguesia contra a vontade do povo, cujos direitos se vêem coarctados pelo despotismo do governo. (.) São como abutres famulentos e insaciaveis á procura de presas para satisfazerem seus desenfreados apetites. Vivem das podridões, dos vícios, das imoralidades, enfim de tudo que estraga, de tudo que corrompe e morre. (.) podemos acusar a imprensa mercenaria como causadora de todos esses delitos que ela condena ao mesmo tempo que propaga tornando-se veiculo propagador da criminalidade e de todos os vícios.Como são falsos, como são despreziveis os vendilhões da pena! (Pettinato, J. A Lanterna,nº 232, 28/02/1914, p. 2 ) O jornalista da grande imprensa é adjetivado como um reles mercador, ganancioso, sem brios e dignidade, não cumpridor de sua missão de orientar o povo. É aquele que vende a sua consciência para ter uma vida fácil e degenerada. Invertendo o discurso de Pettinato (1914), é possível encontrar a afirmação de um outro tipo de jornalista: o jornalista livre pensador, que trabalha pela força de suas idéias, que tem uma missão comprometida com a divulgação da verdade dos fatos. A grande imprensa é acusada de prostituída, vendida aos interesses daqueles que pagam pelos seus serviços, noticiando os fatos com sensacionalismo e de maneira artificial para, com isso, ganhar a atenção do público. Essa imprensa, adjetivada como mercenária, é responsável pela criminalidade que condena. Tais proposições suscitam, pelo avesso do discurso, a aprovação de um outro tipo de imprensa, diferente daquela que só divulga notícias do comércio, da indústria e da lavoura, um outro tipo de imprensa que noticia a crise dos operários e seus comícios, que não defende o "patriotismo" do governo ou os interesses das classes privilegiadas, que não seja mercadoria e que não esteja a serviço com os interesses dos lucros. Na grande imprensa, na pequena imprensa de entretenimento e também na imprensa anarquista de São Paulo, as projeções cinematográficas eram anunciadas com certa programação, a ponto de ser possível afirmar que o cinema passou a ser um elemento constitutivo da vida dessas cidades. Neno Vasco compara o cinema ao jornal para a consecução da tarefa da propaganda social: . [o cinema] como impressiona agita, como se presta admiravelmente a suscitar, resolve, exarcebar paixões e sentimentos, foi imediatamente adoptado como arma de propaganda e de combate, talqualmente a imprensa periódica. (Vasco, A Lanterna, 1913 p.1) O cinema e o teatro nos jornais
As colunas “Espetáculos”, “Diversões” e “Palcos, Telas e Arenas” noticiavam as atividades de entretenimento da cidade, ressaltando e adjetivando os locais de exibição, porém raramente aparecem os títulos do(s) filme(s) em exibição.Vejamos:
Espetáculos
Moulin Rouge – Tem agradado como sempre aos habitues os números do Moulim. A empresa não poupa esforços para apresentar constantes e sensacionaes estréas. Ainda ante-hontem estrearam os 4 mac Nellys, que muito agradaram. Radium – Fitas sempre novas e excellentes. O elegante theatrinho é sempre o preferido do Trotteirs do triângulo e corresponde maravilhosamente á freqüência. Theatro Cassino- Frequentadissimo como sempre, desde sua fundação. Exhibe excellentes fitas novas, das melhores fábricas, e seu conforto, seu aspecto attraente, tudo contribue para levar até ali uma numerosissima concorrência todas as noites. Theatro Colombo – Esta casa de diversões continúa a agradar aos seus numerosos freqüentadores. Para isso a empresa não tem poupado sacrifícios [a] fim de sempre apresentar novidades aos seus numerosos dilettanti, tendo sempre concorrentes. (A Lanterna, nº 08, 04/12/1909, p. 3) No ano de 1911, em A Lanterna, a coluna “Espetáculos” é renomeada como “Diversões”, mantendo suas características de formato:
Diversões
Theatro Cassino – Continua a trabalhar no Cassino a apreciada companhia francesa dirigida pelo actor Louis Balazy, que muito tem agradado aos seus numerosos freqüentadores. Domingo, matinée. Colombo –Esse confortável cinema, um dos mais freqüentados do Brás, continúa a exhibir maravilhosos films d’arte e tem, por isso alcançado verdadeiro successo. Amanhã haverá, como sempre, attrahente matinée infantil. Theatro Avenida Em todas as noites da semana finda, estiveram extraordinariamente concorridas as sessões do apreciado Cinema Avenida. Foram exhibidos diversos films de grande effeito, que muito agradaram seus freqüentadores. Domingo matinée. Cinema Congresso-Os proprietários deste bello cinema, não satisfeitos com as comodidades que já proporcionaram ao seu publico, annunciam para breve uma luxuosa reforma na sua casa de exhibições. Na próxima semana o Congresso exhibirá o celebre film que tanto sucesso tem obtido em toda parte onde tem sido exhibido O Inferno, extrahido do poema de Dante Alighiere. Amanhã matinée. Eldorado Cinema Há poucos dias inaugurou-se a Rua Quintino Bocayuva esta nova e elegante casa de exhibições cinematographicas. O Eldorado tem agradado bastante. (A Lanterna, nº 102, 02/09/1911, p. 3) Duas novidades chamam a atenção nesse anúncio. A primeira é o destaque para o Cinema Congresso, com a exibição do filme O Inferno, baseado em um poema de Dante Alighieri, cuja transcrição era feita em A Lanterna, apresentado na categoria de boa leitura. Desde os primeiros números desse periódico havia propaganda de filmes, o que leva a pensar que os jornalistas de A Lanterna, tinham a preocupação em ressaltar somente alguns títulos de filmes. Na pesquisa, foi observado que outros títulos de filmes ou eram anunciados sem elogios ou eram depreciados. A segunda novidade desse anúncio foi a notícia da abertura de mais uma sala de cinema: o Eldorado Cinema. Isso mostra que o jornal estava atento às ofertas de entretenimento cinematográfico, e que as salas de exibição se valiam da tiragem e da circulação do jornal para publicidade de suas atividades. Na coluna “Diversões” há comentários que qualificam as salas de cinema. Já na coluna “Palcos, Telas e Arenas” é discutida a qualidade dos espetáculos. A primeira coluna constitui-se em um “reclame” das salas de cinema, enquanto a segunda apresenta comentários que fazem parte da propaganda social de aspectos dos ideais anarquistas. Palcos, Telas e Arenas
Na diffusão do nosso jornal muitos exemplares cahirão nas mãos callejadas daquelles que, encharcados pela garoa (.) gastaram bellos dias de sua existência na construção.do Municipal, por exemplo. Estamos certos de que esses homens, dada a ultima martelada ou retocado o ultimo arabesco decorativo, lá não puseram mais os pés Por que? Por uma série de circunstâncias cavillosamente creadas pela burguezia – para a sua pouco adamada presença de trabalhadores naquelle monumento onde, á noite, há concerto de ínfima espécie no mysterio das arcadas. Este facto é registrado em toda a parte e como todos os centros de arte. Ao povo só se concedem os espetáculos por sessões nos theatros baratos onde se representam peças mais baratas ainda. Ahi, a ignorância popular é explorada por empresários que não hesitaram em fazer representar peças cujos originaes não ousariam conceder ás filhas para uma simples leitura. É sabido que a censura policial só se faz sentir quando um revisteiro mais atrevido põe em scenao exaggero de uma queixada administrativa. O Theatro, tal como nolo apresentam é um cano de exgoto de pornografia barata; sem idéia e nem beleza. Os originaes são a espinha dorsal da pachuchada. O resto é feito em scenas de improviso, pelo espírito descabelado dos actores. O cinema que poderia ser empregado maravilhosamente como meio de propaganda scientífica e de difusão dos mais altos ideaes de humanidade, é o que vemos por ahi – a glorificação do assalto; do assassinato, da patriotada, do banditismo.(.) E é isto o que se concede ao povo por esses palcos, telas e arenas. (A Plebe, nº 03, 10/09/1919, p.3) No dia seguinte, em A Plebe, provavelmente o mesmo cronista criticava as fitas de caráter patriótico exibidas nos cinemas. Na mira do cronista estão os proprietários de cinema com uma nova prática: a exibição de “fitas patrioteiras”. Palcos, Telas, e Arenas
Theatros (.). Circos (.). Cinemas – Certos proprietários de cinemas deram para impingir aos seus freqüentadores, extra programma, fitas patrioteiras. A horas tantas, rompe o hymno e surge no palco, apopletico gravibundo, um individuo qualquer, que despeja sobre a assistência uma série de asneiras a propósito dos deveres do cidadão. Esses deveres resumem-se apenas num: ser eleitor. Vá o freguez á liga Nacionalista, aliste-se e pode depois ir dormir socegado. Está salva a pátria. Os operários não terão mais motivos para fazer greves. Este eleitor viverá num paraíso ( A Plebe, nº 4, 11/09/1919, p.3) Além de prescreverem o cinema como instrumento para propaganda científica e dos mais altos ideais da humanidade, os artigos apresentam críticas às temáticas e valores dos filmes que ganharam as telas naquele período. Nos anos de 1909 a 1911, quando foram publicados os artigos apresentados em A Lanterna na seção “Diversões” e “Espetácullos”, o mercado cinematográfico, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro, ainda não estava tomado pela dominação americana. No ano de publicação da coluna “Palcos, Telas e Arenas”, havia um outro quadro de realidade. Os representantes das agências distribuidoras de filmes americanos ocupavam parte significativa do mercado em um processo de dominação que se completaria nos anos de 1930. Considerar as diferenças entre um momento e outro dessas publicações ajuda-nos a compreender as críticas apresentadas pelo cronista do jornal A Plebe em 1919. Em seu discurso ele repudia o teor de entretenimento oferecido aos trabalhadores e às suas famílias, argumentando que ao trabalhador deveria ser oferecido outra qualidade de espetáculos. Que qualidade seria essa? Quando o cronista se reporta ao teatro oferecido na cidade, critica duramente tanto os textos dos originais escolhidos para as interpretações, como a atuação dos atores e atrizes dos teatros da cidade. Afinal, qual o tipo de espetáculo teatral que o tinha como parâmetro de comparação? A resposta a essa indagação pode ser encontrada na história do teatro operário no período. Segundo Lima e Vargas (1986)3, esse teatro chegou ao Brasil junto com os imigrantes. Nos primeiros cinco anos do século XX, calcula-se que noventa por cento do proletariado urbano era constituído por imigrantes de várias nacionalidades, predominando os italianos e, em segundo lugar, os espanhóis. De acordo com essas autoras, o teatro atingiu um alto patamar de organização concomitantemente ao que foi conquistado pela imprensa operária. Esta última teve sua presença marcante, quase que de maneira ininterrupta, desde 1901, noticiando, incentivando a organização e a participação de todos, cobrindo, problematizando e interferindo na vida da população operária . (p.169). Por meio da imprensa, é possível conhecer os eventos culturais do movimento anarquista, dentre os quais a organização de grupos de teatro. As notícias das apresentações de seus espetáculos compunham parte da pauta cotidiana desses jornais. Lendo os artigos que tratam dessa temática, verifica-se que esses grupos de teatro possuíam um repertório próprio e realizavam atividades quase que semanais, construindo vínculos sociais entre os trabalhadores. No teatro social, trazido pelos imigrantes, todos aqueles que não eram alfabetizados, que tinham dificuldades com o idioma, podiam tomar contato com os textos considerados bons na perspectiva da propaganda social. Era possível, nos improvisos, ver e sentir tudo aquilo que havia em comum entre os desenraizados, como, por exemplo, a vida operária em outra terra. As peças que eram representadas, muitas vezes criações dos próprios atores, remetiam a acontecimentos relativos a algum momento 3 As autoras Mariângela Alves de Lima e Maria Thereza Vargas realizaram um pesquisa sobre a origem e o desenvolvimento das práticas com o teatro no movimento anarquista, nas três primeiras décadas do século XX, em São Paulo. Dessa pesquisa resultou o texto “Teatro Operário em São Paulo”, publicado no livro Libertários no Brasil- memória, lutas , cultura – organizado por Antonio Arnoni Prado. vivenciado no período, a saber uma greve, a necessidade de combater a apatia, ou apresentar a diferença entre a sociedade capitalista e a sociedade almejada. Podiam, ainda, corresponder ao sentimento de evocação aos seus antepassados, à vida passada em seus países de origem. O teatro operário era uma mescla do que veio da experiência dos imigrantes em seus países e as transformações que, de geração em geração, foram sendo vivenciadas no Brasil; manifestadas em permanências, tolerâncias, resistências e acomodações. Talvez o parâmetro de comparação que o cronista de A Plebe deixa transparecer quando analisa a qualidade do teatro oferecido na cidade, seja o teatro social, que era dos anarquistas, e não o teatro burguês. Para exemplificar os temas que integravam a programação do teatro social, podemos nos reportar a dois comentários publicados em A Lanterna de peças de teatro que foram exibidas em um festival promovido em benefício da Liga anticlerical do Rio de Janeiro pelo Grupo dramático Anticlerical de São Paulo. Vejamos:
VELADA 4 ANTI-CLERICAL NO RIO
Como fora anunciado, realizou-se sábado passado, no Centro Galego, o festival que o
Grupo Dramático Anticlerical promovera em benefício da Liga Anticlerical do Rio de
Janeiro.
Apezar do tempo pouco convidativo, pois desde a tarde fortes aguaceiros não deixaram de
cair sobre a cidade, foi numerosissima a concorrência, atestando o crescente interesse que
vão despertando estas reuniões de propaganda e de incontestável utilidade social.
Estava anunciada para as 8 horas o início da festa, porém só as 9 esta começou com a
representação da peça Amor Louco, - pungente drama social em que Antonio Augusto da
Silva mostra como na actual organização social , toda cheia de precipícios, existências
que poderiam ser felizes se fosse outro o meio em que vivem, tornam-se desgraçadas
vitimas, umas na flor da idade, quando tudo lhe devia sorrir, outras no fim da vida quando
tudo lhe devia ser paz, quando já nenhuma esperança lhes resta de melhores dias como
este pai que vê a filha morrer, escapando pelo veneno ás torturas que lhe infinge o sedutor
debochado e sem entranhas, e á loucura daquele rapaz meigo e trabalhador que a quer
ainda socorrer e que acaba estrangulando em um acesso de loucura o algoz cínico
causador daquele quadro sombrio.
Em outra peça – A Escada – é uma fina sátira, de Ed. Norés, aos preconceitos sociais.
Faz rir, deste riso sadio que serve de corretivo ás nossas extravagâncias de superioridade
vaidosa diante de um titulo nobiliário, de uma posição que conquistamos, de um cargo por
mais ínfimo que este seja, até mesmo no estado de mendigo que acaba achando no
cachorro que ele escorraça um ser mais abaixo ainda do que ele próprio na escala social.
A interpretação de ambas as peças foi boa por parte dos camaradas que as
representaram, tendo-se todos esforçado em bem caracterizar os personagens que o autor
da peça ideou.
No intervalo das duas peças o dr. José Oiticia fez uma bela conferência sobre a Moral da
Igreja Romana
.
O esforçado camarada fez cerrada crítica da Igreja Católica, suposta detentora da
Verdade revelada, criadora de uma moral manca, como mancos são os princípios em que
ela se apóia.
4 A velada, na tradição da nossa classe operária, era uma festa que normalmente iniciava na noite do sábado, terminando às 4 ou 5 horas da manhã de domingo. Após a apresentação de um drama de fôlego, às vezes com 5 atos, unia o útil ao agradável, estabelecendo a síntese entre o lazer da música e a utilidade de uma conferência da propaganda social seguida de um ato cômico depois de um drama excessivamente trágico. Finalizando a noite seguia-se um baile familiar. A velada permaneceu com significativa freqüência durante no mínimo trinta anos, sem sofrer muitas modificações na sua forma de organização (Lima e Vargas, 1986, pp.177-178). Terminadas estas partes do programa, seguiu-se-lhes logo animado baile familiar e também uma quermesse, prolongando-se as dansas até meia madrugada. C. L. (A Lanterna, nº 217, 15/11/1913, p.2). Os comentários apresentados referem-se a um drama e a uma sátira. Sobre a primeira peça, o que fica mais marcado parece ser o sentimento de solidariedade e ao mesmo tempo a luta contra a injustiça sofrida pelo personagem qualificado como “meigo” e “trabalhador”. A mensagem do drama da primeira peça indica promessas de uma vida feliz que é condicionada à existência de uma outra organização social. Na segunda, o comentarista declara tratar de uma sátira que, apesar de provocar risos, são risos que levam à reflexão sobre os preconceitos sociais. Não é rir por rir, simplesmente! Solidariedade, luta contra as injustiças, combate aos preconceitos sociais são valores, princípios do pensamento libertário evidenciados nesses comentários. Na organização tanto do teatro social como na imprensa operária havia a presença de intelectuais, às vezes exilados políticos, que entendiam muito bem a importância da solidariedade do militante entre aqueles que estavam na mesma situação: a de viver e de trabalhar em outro país. As tarefas dos envolvidos nessa empreitada - a propaganda social -, incluíam estratégias para alfabetização, sempre criando condições para a reflexão crítica sobre as condições de vida e de trabalho. As atividades operárias fossem elas com o teatro, com a música, com a organização das quermesses, dos bailes, a arte de maneira geral, tinham na imprensa operária o seu principal veículo. Os vínculos sociais que se formavam nas idas ao teatro, nas leituras coletivas dos jornais, opúsculos e livros, nas festas em benefício deste ou daquele grupo ou jornal, nas atividades das escolas mantidas pelo movimento, enfim todas as práticas culturais constituíam a propaganda social. Talvez seja a ausência desses vínculos sociais na arte da burguesia que faz o cronista do artigo “Palcos, Telas e Arenas” repudiar os seus espetáculos, pois além de não prestarem serviço à ciência, não eram acessíveis ao trabalhador. Tanto a presente pesquisa, como os textos de outros pesquisadores sobre as práticas educativas dos anarquistas no Brasil evidenciaram que nos espetáculos do teatro operário, geralmente os textos originais escolhidos apresentavam conteúdos compatíveis com as idéias libertárias, ou promoviam reflexão sobre a condição da vida operária. No discurso do cronista de A Plebe, a arte, a música, o teatro e o cinema deveriam apresentar qualidades que estivessem à altura daqueles que construíram o Teatro Municipal e outros centros de arte. Segundo o cronista, esses centros de arte deveriam ser de freqüência acessível àqueles que os construíram. Em relação à concepção de arte, segundo Lima e Vargas (1986), tal concepção assume um caráter funcional, ou seja, de propaganda do ideário anarquista, como se pode observar nas considerações das autoras, a seguir: Por um lado, a arte é o veículo certo para projetar a imagem de uma sociedade ideal, cuja característica básica é a harmonia coletiva, subsistindo através da absoluta liberdade individual. Por outro lado, os princípios filosóficos do anarquismo pensam a arte como uma função natural, comum a todos os indivíduos e vinculada à necessidade expressiva. Está intimamente ligada ao cotidiano e, portanto, à prática política necessária para a transformação social. É ao mesmo tempo um instrumento de crítica e de projeção.(.) Se considerarmos que tanto na Itália quanto no Brasil o pensamento libertário informa as reivindicações das classes trabalhadoras, é fácil verificar que essa tendência para a realização poética de um mundo imaginário vai tomar um caráter acentuadamente proselitista e didático. (p.167) No discurso anarquista é possível identificar o que eles entendiam como pertencentes ao seu universo: o “nós” o “nosso” e os que eles reconheciam como estranho às classes trabalhadoras, isto é, o “eles” o “deles”5 . Para pensar sobre essa questão, o artigo “Ecos da temporada lyrica” nos revela : PALCOS, TELAS E ARENAS
ECOS DA TEMPORADA LYRICA
Nós os plebeus, quando queremos ouvir a boa musica do lyrico, vamos de gallinheiro. Ali nos sentimos mais á vontade, entre o Zé-povinho que tem bolsa magra, mas teima assim mesmo por amor á arte, em quere desfrutar as deliciosas sensações que a musica transmite á nossa alma. Ainda bem que os burguezes nos concedem esse direito de ouvir, mesmo la das torrinhas, as mesmas notas que eles ouvem, ou por chic fingem ouvir. Porque elles, na sua quase totalidade, o que lávão fazer não éouvir. Vão mostrar-se na reluzencia dos seus trajes de rigorm, muitas vezes caloteados aos alfaiates. E vão quando muito, ver as nudezas do próximo, da mulher do próximo, que se offerecem corada.a carmim, aos olhares concupiscentes. As vezes, entretando, um plebeu “fura” e consegue entrar na platéa. Volta-se toda a gente “selecta” escandalizada. Que desaforo! Um typo mal ajambrado, de paletot sacco, sem anéis bem brilhantes, á metter-se no meio della! Não será algum gatuno, que vem bater carteiras ou roubar jóias? E todos os meninos bonitos se retraem com olhares desconfiados. O plebeu olha-os a todos com nojo. Sente-se mal no meio de tanta podridão moral. Antes tivesse ido para o galinheiro! Mas felizmente o espetáculo começa. E enquanto nós ouvimos a musica, elles.mostram-se Imbecis! (A Plebe, nº 40, 29/10/1919, p.2) O desabafo desse cronista de A Plebe expressa o sentimento de ser plebeu. A identidade de classe externada na denominação “plebeu” , “Zé Povinho” abarca todos aqueles que possuem “bolsa magra”. Essa condição de classe fica bem marcada quando o teatro é indicado como um lugar da burguesia , um território que lhe pertence. “Eles” que ostentam “reluzência em seus trajes a rigor” são os ocupantes da platéia. A situação de luta e de resistência se mostra quando o plebeu, aquele da “bolsa magra”, penetra nos domínios “deles”, os burgueses. Ao “furar”, ao invadir o teatro “deles”, o campo de conflito é clarificado: não fosse pela função da músic , o esforço de ficar ao lado dos burgueses não valeria a pena. A arte pode estar no lugar “deles”, como em qualquer outro espaço, em espaços que não pertecem a “eles”. Para o cronista, o “zé-povinho” tem a verdadeira sensibilidade para a música, indo ao teatro, busca deliciosas sensações de prazer. . A música faz parte de sua existência, é alimento para a sua alma. 5 Na obra As utilizações da cultura, de Richard Hoggart, já citada no capítulo 1 (p.22), o autor, em seu terceiro capítulo, recorre a duas categorias para designar aquilo que é próprio e próximo das classes proletárias e para indicar aquilo que está distante, que está de fora. O “nós” e o “nosso” dizem respeito ao universo das classes proletárias e as categorias “eles” e “deles” referem-se aos que estão de fora. Com essas duas categorias o “nosso(a)” e o “deles(as), Hoggart teceu a produção e a reprodução do modo de ser e de se relacionar com os outros, próprios das classes proletárias, indicando as lutas, resistências, permanências, tolerâncias, acomodações em seu processo de “ir sendo”. Essa leitura foi significativa para examinar as fontes.Com a preocupação em não realizar uma transposição mecânica, emprestamos o olhar de Hoggart para examinar os distanciamentos entre aquilo que o cronista entende por “ nossa arte” (a dos anarquistas) e o que ele entende por “arte deles” ( dos burgueses). De um lado estão “eles” que não sabem aproveitar a boa música, contudo só estão preocupados em mostrar seus trajes. Do outro lado “nós” que sabemos ouvir e aproveitar os benefícios da música e sabemos a importância vital de combater preconceitos sociais. Essa estratégia de construção de espaços próprios para manifestações artísticas foi uma constante no movimento anarquista. Porém, à medida que a indústria de entretenimento avançava em São Paulo, recrudescia ainda mais a necessidade de o movimento intensificar a propaganda social. Nesse sentido, estar atento ao que era oferecido como possibilidade para a propaganda social era tática de combate. O estudo demonstrou que nas duas primeiras décadas do século XX as práticas relativas aos usos do cinematógrafo estavam intrinsecamente ligadas ao teatro; mais especificamente ao teatro operário. O
cinema era uma espécie de teatro filmado. Dessa evidência, foi possível perceber que antes de o cinema
encantar as classes médias e abastadas, ele estava intensamente voltado à vida operária. Como teatro
filmado, as atitudes dos primeiros cinegrafistas, sujeitos pertencentes às classes populares, era realizar
filmagens de cenas da vida operária. Essas evidências se somadas aos registros jornalísticos sobre a
temática dos primeiros filmes, levou à suposição de que por meio do cinema, os sujeitos comprometidos
com a prática da propaganda social anarquista, pretendiam expressar a sua própria visão de mundo,
registrar sua história, tomar para si a sua imagem. Todo esse debate ocorreu na imprensa considerada uma
prática social da propaganda social das várias correntes do movimento anarquista.
Fontes utilizadas:
A Lanterna anticlerical e de combate
02, 06/04/1901, p.1; nº 08, 04/12/1909, p. 2; nº 102, 02/09/1911, p.2; nº 217, 15/11/1913, p. 2;
nº 183, 22/03/1913, p.2; nº 184, 29/03/1913, p.3; nº 232, 28/02/1914, p.2;
A Plebe
nº 03,10/09/1919, p.3; nº 04, 11/09/1919, p.3;nº 11, 21/09/1919, p.2; nº 40, 29/10/1919. p. 2; nº
71, 03/07/1920, p.3.
Referências bibliográficas
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1917 a 1921. 1º ed. Campinas: Ed. Pontes.
FIGUEIRA, Cristina Aparecida Reis. 2003. O cinema do povo: um projeto da educação
anarquista-1901-1921
. São Paulo: Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História,
Política, Sociedade. Dissertação de mestrado apresentada na PUC-SP.
GIGLIO, Célia Maria Benedicto. 1995. A voz do trabalhador: sementes para uma nova sociedade.
Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Educação. USP. HOGGART, Richard. 1973. As Utilizações da Cultura – aspectos da vida da classe trabalhadora, com especiais referências a publicações e divertimentos. Lisboa: Editorial Presença. KHOURY, Yara Maria. 1988. Edgard Leuenroth: uma voz libertária – Imprensa, Memória e Militância Anarco-Sindicalista. Tese de doutorado apresentada na USP. LIMA, Mariângela Alves de e VARGAS, Maria Thereza. 1986. “O Teatro Social” In PRADO, Antonio Arnoni (org) Libertários no Brasil –memórias, lutas, cultura. São Paulo:Brasiliense,(162-250).

Source: http://www2.faced.ufu.br/colubhe06/anais/arquivos/291CristinaAparecidaReisFigueira.pdf

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